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sábado, 14 de março de 2009

Cleo e Daniel

Desespero. Amor. Silêncio. Delírios...
O coquetel de emoções que esse livro apresenta. Deixou-me apreensiva, angustiada e confusa...
É tudo tão surreal, tão louco e ao mesmo tempo livre... tão livre e verdadeiro.
A busca pela paz.
O encontro com deus.
AMORTE - União.
Tudo tão pesado... impossível, proibido, mas ao mesmo tempo desejado.
A ingenuidade de Cleo.
A melancolia de Daniel.
Tudo misturado, separado e belo.

" - Cleo! Cleo! Cleeeeo!
E viu o nome diante de si. Nome ofegante,com a maleta na mão. Entre o nome e ele, um banco. A calçada e depois os carros, os ônibus, os edifícios.
O nome caminhou e ficou encostado no banco. A mão se abriu e a maleta caiu no chão. Abriu-se: pijama, escova, chocolate, calcinha, um livro, o disco.
No ar, outro nome:
- Daniel!
- Cleo!
- Daniel!
- Cleo!
Ele chegou também para junto do banco. E o espaço entre seus lábios diminuía, enquanto pronunciavam os nomes cada vez mais baixo, mais para uma só pessoa.
- Cleo...
- Daniel...
As mãos se encontraram quando não era mais possível falar. Porém ainda houve tempo pra que Cleo e Daniel se dissessem os nomes, um dentro do outro. Sentaram-se abraçados, as bocas coladas.
Primeiro a subida. Como nos sonhos. A gente salta e permanece longo tempo no ar, quanto quiser. Cleo subia pelos lábios de Daniel. Subia insuflada pelo ar, pelo hálito verde, seiva aérea que chegava à boca e descobria passagens novas e inexploradas, para se expandir. E percorria seu corpo por onde jamais passaram os nervos, o sangue, a linfa, a vida. Um despertar de sono eterno, só átomos, das células, dos órgãos. Mais luz que calor. Sentia a transparência inflamada de uma necessidade antiga e desconhecida. No alto, muito alto, acima de tudo, percebeu que a vida se reorganizava dentro de si, fluindo mansamente de todas as partes iluminadas, para um centro único. E começou a descida. Primeiro dentro. Da boca ao ventre. Quando toda a sua vida, renovada, limpa, concentrada, unitária, deixou morto o resto do corpo e ficou suspensa, imóvel no sexo veio a exploração, a desintegração, o caos. A paz vertiginosa.
Daniel sentiu e compreendeu tudo o que acontecia em Cleo. Porque não havia mais Cleo. Nem Daniel. Havia o beijo. O encontro, a ascensão e a queda. Queda que era ascensão, pois não havia mais centro, como não há centro nem periferia no universo. O curso da energia livre não tem fim. E novas desintegrações, novas sínteses, no ritmo do infinito sendo antes e depois sem tempo, sendo aqui e agora, sem espaço.
Um beijo de adolescentes num banco de praça. Três horas da tarde. Bocas coladas, olhos fechados, mãos apertadas. Nenhum movimento na superfície. Indício aparente algum de que havia sido violado o segredo da vida, dentro daquele beijo.
O primeiro transeunte achou bonito e parou. Olhava o casal, mas via a sua própria condição. E chegou no limite de sua solidão e insatisfações. Deixou de sentir e pensou. Parou de pensar e julgou. Julgou com a solidão e as insatisfações. E condenou.
O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto, todos, porque já não eram mais um, não tiveram tempo e nem possibilidade para a surpresa, a emoção e o juízo. O sexto, o sétimo, o oitavo, o nono, o décimo, porque precisavam perguntar para conhecer o que viam, sentiram o que o primeiro julgou e os outros escandalizaram.
Onde dez pessoas param, haverá logo uma centena. Nasce a multidão, exigindo satisfação plena. Como o amor e o ódio das feras em liberdade. As leis do NÓS não têm conteúdo de consciência, de ética e de valor.
Olhares, gestos, gritos, assobios individuais, logo tornaram-se corais e danças. Porisso, para compreendermos a massa é preciso estarmos bem acima dela, numa posição e distância que não nos possa contaminar e não seja possível distinguir o que faz um de seus componentes. E seu líder, o inconsciente da Humanidade.
Quem, como pessoa, pode suportar, face as suas limitações, frustrações e angústias, a imagem da liberdade total, do prazer e da alegria revelados de forma pura e natural? Quem, como pessoa, que racionaliza o impossível, que mistifica o misterioso e sublima a impotência, pode tolerar a visão física do eterno, o segredo humano revelado, a energia vital possuída e possuindo?

Não se via nada, além da estátua de um beijo. Estátua de carne, mas estátua. Nenhum movimento. Apenas o tempo do beijo era maior, como o das estátuas. Só isso o que se via sobre o banco da praça. Cada um que olhava, entretanto, sentia o que não estava olhando. E entrava merda em lugar de sangue, em seu coração. Sentia, cada um, ao ver aquilo, o que houve nunca em si mesmo. E a estátua de carne torna-se uma ofensa. Ofensa insuportável que obriga revide. Necessidade de revide que é inveja. Muito mais que inveja, é ódio. E quando chega-se ao ódio, descobre-se o amor. O amor inatingível, o amor alheio. Então, olhando o beijo de Cleo e Daniel, sentindo o que vê - o desconhecido sentimento, o inatingível prazer - cada um é um mendigo em desespero. Cada um é o ódio exigindo destruição.
Na massa, poucos vêem, mas todos sentem. E basata alguém gritar. E alguém gritou. Veio a fúria. Todos gritavam. Gritavam para se libertarem da dor que os imobilizava, impedia-os de viver.
Cleo e Daniel não se dava conta de coisa alguma, além do que sentiam. Era tudo novo, imenso. Não podiam ouvir gritos e perceber a presença da massa enfurecida a seu redor. Subidas e descidas, sem fim. Sons e cores desconhecidas e mais belas que os existentes. E o calor, mais qualidade que intensidade. Cleodanieldanielcleo: silêncio.
Os mais próximos, berravam aos seus ouvidos. O que é que diziam? Nada. Berravam, como os bichos. Berravam que era preciso parar, acabar. No céu, desde que os dois haviam se encontrado, apenas o Sol desaparecera. Na terra, por ali, o trânsito estava interrompido. Filas imensas de carros, de ónibus e gente que descia e juntava-se à massa. O que havia? Os últimos nunca sabem a verdade. Mas gritam como os primeiros. E são ainda mais cruéis.
Sirene. Os soldados descem de caminhões. Enfrentam a massa. Para dispersá-la. Porque o trânsito está parado e o povo ocupa toda a Praça da República, as ruas próximas, Apitos que ensurdecem, bombas que fazem chorar, mas não se afastam.
Longe, muito longe do alcance das bombas, Cleo e Daniel choram também e estreitam o abraço. Mas são agarrados. Um grupo segura o corpo de Cleo e o outro de Daniel. Começa a luta. Conseguem, num tranco violento, separá-los. Suspensos sobre as cabeças do povo, são impulsionados por braços e mãos sem direção e sentido algum. Seus gritos não podem ser ouvidos, porque um gemido desesperado e contínuo, coletivo e anônimo, apaga tudo. Os dois dizem apenas: Cleo e Daniel. Cleo grita por Daniel. Daniel grita por Cleo. Mas a distância entre ele aumenta sempre. Ela está na rua das Palmeiras e ele na rua São Luís, suspenso agora por pequeno grupo de pessoas. E caem no asfalto. Não se erguem. Ninguém mais é todos. Acabou. Ônibus e carros superlotam. O trânsito volta a funcionar. Ruas e praças ficam desertas. As luzes se acendem.


Um lindo Romeu e Julieta Rodrigueano que exprime a impossível existência do amor em uma sociedade burguesa, como diz Roberto Freire.
Li a última página com meu coração aflito - era câncer ou amor? - dormi com minha alma dolorida.

" Bonne nuit, petit monstre adorable, salaud de mon coeur... "

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