"Do que eu gosto verdadeiramente? Da minha casa. Do meu umbigo. De unhas cor de carmim. De homem que sabe ser homem. De noites em claro e dias em branco. De chuva e de sol. Eu guardo as minhas rejeições em vidrinhos rotulados com o nome deles. Eu sou mole demais por dentro pra deixar todo mundo ver. Eu deixo pra quem eu acho que pode comigo. Ninguém sabe. Mas eu tenho coração de moça."
Nunca fui como todos,
Nunca tive muitos amigos,
Nunca fui favorita,
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
O meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
Não vivo sozinha porque gosto
e sim por que aprendi a ser só.
Florbela Espanca
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptosas danças...
Florbela Espanca
Olha que lindo cotovia...
— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.
— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.
— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!
— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.
MOMENTOS
Ele sempre sabe ser inconveniente e surpreendente!
Mas ele é um incômodo deliciosamente irresistível...
Minha pele tem o cheiro temperado por um toque de saudade... Mas meus perfumes estão extremamente imprecisos, são tantos os cheiros que me enjôa o fato de nenhum de fato ser o meu.
E todo aquele que por meu corpo passou deixou um pouco de uma saudade oca e cheirosa. Mas de todos, três não somente passaram, mas sim abalaram com as poucas convicções que meu mero racionalismo tinha inventado. Porém nenhum deles ainda trouxe a ífima flor amarela que incoerentemente espero.
Tua suadade tem gosto de amora.
Mas já não como amoras, talvez, na verdade nunca as tenha comido.
Talvez sejamos apenas brisa. Em certos tempos alguns ventos nos aproximam, em longas estações só recordamos o soar do nosso movimento, que separados se expandem por terras desconhecidas.
Eu não quero o silêncio dos teus olhos, mas o dos teus lábios que são demasiadamente tolos ao falar de amor!
Se sinto teus olhos distantes isso me incomoda, mas morro no momento em que teus olhos vêem um rosto que não é o meu.
Por favor, fique cego!
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