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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lembrança lilás

Querido,
É tempo de orquídeas, se é que estás têm tempo.
Só sei que hoje vi orquídeas lindas.
Daquelas de pétalas arredondadas, pétalas roxas, perfumadas.
Orquídeas que estavam lá para alguém...
Querido nunca me deste orquídeas, nem dálias, muito menos girassóis.
As flores que de ti ganhei vieram do cheiro de meu corpo e delas desfrutei apenas os nomes pronunciados por tua palavra.
Querido, não resisto, vou plantar orquídeas em meu jardim.
Vou plantar orquídeas em mim.

 

quarta-feira, 31 de março de 2010

Outono

Querida andorinha que belo o teu vôo, porque andas sozinha a buscar companhia?
Repousa aqui ao meu lado, vamos puxar uma conversa, olha as pétalas caindo, caindo pétala por sépala.
É o verão que acaba, sei bem que tu sabes e ao outono que chega e descolore os meus dias dedico uma flor amarela de pétalas murchas que sonho ter em minhas mãos.
Cada pétala é a espera de meus olhos que caem sob mundos ausentes de antigos senhores que um dia supus amar.
Calma andorinha... O verão voltará por debaixo de tuas asas e nele quem sabe encontremos os sonhos que outrora perdemos por essas estradas de seixos furta-cores e gramas molhadas por chuvas erradas dos momentos de vir.
Andorinha... O meu outono não é sépico, apesar de tantas faltas, nele há cores inexatas de sentimentos verdadeiros. Meu outono é de leve uma primavera, nele nem todas as folhas caem e nem todas as flores brotam, mas sempre há as exceções e nelas residem os meus sorrisos.
Andorinha... Calma, não estás sozinha, pois, por aqui querendo ou não, sempre há um beija-flor e ele te mostrará quais flores hão de enfeitar os teus dias de solidão. Não te iluda doce andorinha... O belo beija-flor, nunca será o verão, ele é apenas um alívio, apenas um suspiro para teus dias sem amor e caso te apaixones por ele, doce andorinha, o outono será a tua estação e nela o verão voltará com novas flores e cada flor que encontrares será como beijar o beijo de teu beija flor que outona em outros ares.

sábado, 27 de março de 2010

Deus...

"Não ouviram falar daquele louco que, à luz clara da manhã, acendeu uma lanterna, correu pela praça do mercado e se pôs a gritar incessantemente: Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!
Estando reunidos na praça muitos daqueles que, precisamente, não acreditavam em Deus, o homem provocou grande hilaridade. Será que se perdeu? Dizia um. Será que se enganou no caminho, como se fosse uma criança? Perguntava outro. Ou estará escondido? Terá medo de nós? Terá embarcado? Terá partido para sempre?
Assim exclamavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar: “Onde está Deus?”, gritou ele, “digo vos! Matámo-lo, vós e eu! Somos todos os seus assassinos! Mas como foi que fizemos isso? Como fomos capazes de esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja com que apagámos o horizonte inteiro? Que fizemos, ao desamarrarmos esta terra do seu sol? Para onde irá agora a terra? Para onde nos levará o seu movimento? Para longe de todos os sóis? Não nos teremos precipitado numa queda sem fim? Uma queda para trás, para o lado, para a frente, para toda a parte? Haverá ainda um em cima e um em baixo? Ou não erraremos através de um nada infinito? Não sentimos já o sopro do vazio? Não está mais frio? Não é sempre noite sem descanso e cada vez mais noite? Não teremos que acender as lanternas desta manhãzinha? Não ouviremos nada além do ruído dos coveiros que enterraram Deus?”

Nietzsche, A Gaia Ciência [Die fröhliche Wissenschaft] , § 125

quinta-feira, 25 de março de 2010

Enchente

Por quantas ruas haveremos de andar para nos encontrarmos em uma certa esquina cheia de lembranças?
Viste que na noite passada choveu?
Choveu como naquela madrugada em que estávamos saindo do bar.
Andávamos brincando com as pedras , subindo e descendo calçadas como se a rua, deserta a certa hora, fosse a casa de nós dois.
Nessa noite choveu aquela chuva fina que surge apenas para refrescar... Aquele chuvisco que cai e acalma o calor dos corpos com leves carícias na alma.
Ontem choveu assim e eu estava dormindo com a janela aberta - pois sabes como sou, ventos artificiais não ventilam a minha pele. Pois bem, eu estava dormindo quando os pingos começaram a dançar pelo meu rosto e acordei assim, sentindo teus cílios passeando por mim e nesse momento voltei a sentir saudades tuas.
Fazia tempo que eu não pensava em você.
Deixei as fotos na casa velha, troquei uns bares por outros bares e parei de dançar pelas ruas a altas horas como se eu fosse uma folha rabiscada que se perde sobre um vento louco de ventilador.
A saudade era balsâmica, não veio machucando com nossas brigas como das outras vezes. Pelo contrário, veio "de bem", inspirada pelo sorriso de nossos lábios debaixo das águas do céu.
Encostei-me à janela para melhor sentir a chuva.
Foi resilente te perder e nessa mesma janela na qual me apóio, por divesas vezes a chuva que senti cair, caiu de meus olhos vermelhos.
Vivi sem ti como se eu fosse um livro sem palavras... Faltaram-me canetas para riscar, faltou-me bosques, faltou-me romance.
Quem erámos juntos?
Não lembro de mim antes de ti. Não lembro de mim com você.
Lembro-me apenas de mim ontem ao lemrar de ti e nessa casual lembrança percebo a mudança do gosto que antes te sentia.
Digo isso porque antes, ao lembrar ti, a minha boca se enchia do gosto exótico dos damascos que me trazias. 
Hoje o gosto está envelhecido, um tantinho apodrecido, como se os damascos que antes vinham frescos viessem agora guardados dentro daquele saquinho à vácuo que vende na prateleira de importados do supermercado da esquina. Quando agora te recomo fico com o teu gosto de damasco apenas na superfície da minha língua, o que nela penetra tá mais perto do gosto de um sentimento antigo, já sem graça de ser comido novamente pela mesma boca.
Escrevo isso para não esquecer dessa sensação paradoxal que me aconteceu ontem, para não me esquecer desse sabor incômodo que ontem deixaste em mim e para apenas me lembrar, se acaso voltar a ter lembranças suas, restritamente dos teus cílios que me acariavam com o desvelo de um amante.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sonrisa



Havia um sorriso que marcava a minha alma
Nele incontáveis sentimentos surgiam para que um laço se transpusesse de sua boca à minha e em meus lábios se desenhasse o contorno da alegria.
O som de tal sorriso era íntimo e vulgar... aparecia em momentos de olhares desmascarados, corpos desnudos e vontades de amar.
Tal riso era a chave de uma cadeia na qual o meu corpo repousava...
Riso subversivo, erótico e cínico de poeta e amor
Teu riso era o desenho de meu desejo
Era a vontade de meu beijo
Teu riso era nossos corpos enlaçados
Nosso imoral pecado
Nossa saudade abstrata.
Teu riso era contínuo do meu perfume
Teu riso passeava por minha pele e em cada poro lançava o transbordar de nosso resvalado prazer...
Teu riso, vindo de tua boca amada, tua boca sagrada, tua boca espanicamente doce.
Teu riso, pleonasmo de meu amor, meu porto ilusório, meu abismo complacente de um riacho quente e de uma vontade surreal.
Teu riso, um tango de Gardel, pelo qual mil cabeças eu cortava, pelo qual só para tu eu dançava uma milonga de amor.
Teu riso, eterno poeta de meu corpo, sempre estará em minha pele e nas lembranças de meu gozo... Teu riso era o meu gozo... Meu riso era meu gozo... Meu riso era você.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

terça-feira, 2 de março de 2010

Voltas...

Pierrot Por favor dê-me um coração de vidro ...
Nele porei uma flor igual aquela que alguém esqueceu-se de me dar ...
Por favor Pierrot ...
Ama-me sem tréguas, sem planos e sem esperas de um dia eu também te Amar...
Por favor Pierrot
Pinta a minha cara, deixa-me cega com uma tinta que protege o teu sentir
Por favor pierrot
Ama essa concubina que se chama Colombina e que não sabe mais sorrir.


Querido Arlequim,
 devolve-me a rosa vermelha que um dia dei a ti.
Aparece de vez em quando, há roupas tuas nas gavetas e o teu cheiro ainda anda em mim.
Querido Arlequim,
Senti tua falta hj ... Senti a tua boca na boca de outras moças. O que há com nosso gosto?
Porque não voltas para mim?
Querido Arlequim,
Brinca com minhas lágrimas, sente a minha falta como se na tua vida um dia eu existi.
Querido Arlequim
Sou uma Colombina que transformaste em concubina de um carnaval infeliz.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

... Começo ...

Surge em minha mente a vontade de começar algo... Algo com você... Mas como se com você não tenho nada novo? Como se com você pus um fim supostamente sem voltas?
Seria possível um re-começo?
Passei a noite sonhando estar ao teu lado e nos sonhos nossos olhares, inexplicavelmente, se compreendiam e em tua íris eu via um amor que sempre ousei desejar, mas que nunca de fato pude constatar.
Acordo e vejo que teus olhos eram ilusões... Vejo tua foto, um sorriso, uma boca e a lembrança de um gosto em minha língua... Sinto tanto a falta de teus lábios nos meus...
Será que eu poderia ousar um re-começo com você?
Te olhar de novo com olhos desconhecidos?
Te beijar de novo com um gosto de novidade?
Te amar de novo sem esperar que me ames na mesma medida?
Será que eu conseguiria ousar um re-começo?
Novas palavras,
Novas conquistas,
Novos risos e
Novos sofrimentos?
Sim...
Eu te queria de novo.
Te beijar de novo
Te envolver em meus braços em um singelo abraço de carinho
Te amar... Te amar como naquele dia na piscina, sob um sol de meio dia que esquentava nossas faces molhadas e na noite do mesmo dia, deitados numa cama de motel barato, abraçados, simples e apaixonados por nossos desejos refinados ao simples toques de mãos.
Sim eu te queria/quero de novo...
Mas não quero recomeçar.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Olhar sutil

Que belo corpo o senhor tem.
Olhei-te assim de longe, reparei em teu contorno e subitamente senti que os nossos corpos poderiam se  aerodinamizar sobre lençóis desconhecidos.
Oi, como te chamas? De onde vens? Tuas poucas palavras, teus olhares rápidos não foram-me bastante e tiraram-me uma chance de ter-te em mim.
Mas é carnaval e quando não mais esperava, oh linda noite estrelada a incitar as vontades de nossas peles fracas por sentir.
Querido, chega junto. Não te intimides. Pois de dia, sou uma boba Colombina que não ousaria lançar-se a ti.
Ah! És um homem de olhar sutil ... que charme!
Permita que meus olhos rodrigueanos invadam teu corpo... Arranca-me a roupa, lança-me à cama e deixa que eu te beije a boca, pois à noite sou uma ousada meretriz que se entrega aos desejos mais vis por um simples ato de amar ... Amor de escambo é do que vive meu pobre coração.
Querido, em ti no mar senti-me. Teus braços eram uma forte correnteza a puxar-me, tua língua, onda  rítmica a dançar em minha boca com a umidade de tua doce saliva ... Que mãos curiosas as tuas... Que risos excêntricos os meus ... Fugas, volúpia e brincadeiras ...
Homem de calor carioca, ainda sinto o cheiro de meu frevo misturar-se ao toque de teu samba e quero que em tua boca ainda haja o doce sabor de meu pecado.
Querido, apaixonar-mos-emos pelas lembranças de nós dois, pois a distância será a cúmplice de tal lembrança ... eu em ti e tu em mim como num amor natural de Drummond.
Homem, em uma noite deixaste de ser carioca, deixei de ser pernambucana e tornamo-nos seres ausentes do mundo de fantasias. Naquele ínfimo instante de vida fomos apenas presentes um no outro e nossa república era a dos olhares e dos gemidos de nosso gozo.
Querido homem carioca de olhar sutil, levo-te em minha pele como uma recordação do sol de Copacabana.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Amor 77



Y después de hacer todo lo que hacen, se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se peinan, se visten, y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son.

Julio Córtazar

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ISSO É MUITA SABEDORIA

Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.



Clarice Lispector

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Retorno...

Com qual permissão voltas assim?
Não sabes que estou bem?
Até novos amores conquistei em busca de teu esquecimento.
Porque mexes nesse amor infante se a custo de choros insuportáveis eu consegui acalmá-lo?
Tenho medo de cair no poço... brinco ao seu redor, mas ao chegar em sua beira noto que ainda não estou preparada.
Porque fazes isso comigo?
Eu que tanto te amei chorei por tu não mais me amar e hoje resolves dizer que me amas.
Amorzinho... amo-te tanto, mas não te quero junto a mim... amo-te tanto mas já não quero pensar em ti.
Quero apenas, em momentos de luxúria, matar a saudade de tua boca ao me beijar, dos teus braços na minha cintura e de teus olhos junto aos meus.
Amorzinho... Te amo incondicionalmente e por assim o ser amo-te livremente... quem sabe, talvez, enfim eu estou a amar-te anarquicamente.

  • Em mais um momento escrevo a uma amiga... Não sei porque, mas sinto teus sentimentos do mesmo modo como quando tu choras ao ver minhas lágrimas...

Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber