Por quantas ruas haveremos de andar para nos encontrarmos em uma certa esquina cheia de lembranças?
Viste que na noite passada choveu?
Choveu como naquela madrugada em que estávamos saindo do bar.
Andávamos brincando com as pedras , subindo e descendo calçadas como se a rua, deserta a certa hora, fosse a casa de nós dois.
Nessa noite choveu aquela chuva fina que surge apenas para refrescar... Aquele chuvisco que cai e acalma o calor dos corpos com leves carícias na alma.
Ontem choveu assim e eu estava dormindo com a janela aberta - pois sabes como sou, ventos artificiais não ventilam a minha pele. Pois bem, eu estava dormindo quando os pingos começaram a dançar pelo meu rosto e acordei assim, sentindo teus cílios passeando por mim e nesse momento voltei a sentir saudades tuas.
Fazia tempo que eu não pensava em você.
Deixei as fotos na casa velha, troquei uns bares por outros bares e parei de dançar pelas ruas a altas horas como se eu fosse uma folha rabiscada que se perde sobre um vento louco de ventilador.
A saudade era balsâmica, não veio machucando com nossas brigas como das outras vezes. Pelo contrário, veio "de bem", inspirada pelo sorriso de nossos lábios debaixo das águas do céu.
Encostei-me à janela para melhor sentir a chuva.
Foi resilente te perder e nessa mesma janela na qual me apóio, por divesas vezes a chuva que senti cair, caiu de meus olhos vermelhos.
Vivi sem ti como se eu fosse um livro sem palavras... Faltaram-me canetas para riscar, faltou-me bosques, faltou-me romance.
Quem erámos juntos?
Não lembro de mim antes de ti. Não lembro de mim com você.
Lembro-me apenas de mim ontem ao lemrar de ti e nessa casual lembrança percebo a mudança do gosto que antes te sentia.
Digo isso porque antes, ao lembrar ti, a minha boca se enchia do gosto exótico dos damascos que me trazias.
Hoje o gosto está envelhecido, um tantinho apodrecido, como se os damascos que antes vinham frescos viessem agora guardados dentro daquele saquinho à vácuo que vende na prateleira de importados do supermercado da esquina. Quando agora te recomo fico com o teu gosto de damasco apenas na superfície da minha língua, o que nela penetra tá mais perto do gosto de um sentimento antigo, já sem graça de ser comido novamente pela mesma boca.
Escrevo isso para não esquecer dessa sensação paradoxal que me aconteceu ontem, para não me esquecer desse sabor incômodo que ontem deixaste em mim e para apenas me lembrar, se acaso voltar a ter lembranças suas, restritamente dos teus cílios que me acariavam com o desvelo de um amante.