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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

DUETO

Deitada vejo o acaso passando por meus olhos.
Se antes éramos sonhos, o que somos hoje então?
Porque não amas a mim? Tão imperfeita e vulgar? Tão doce e compreensiva?
Porque não amas essa carne miseravelmente servil ao teu toque?
Porque não amas estes cabelos inconstantes? Cacheados, vermelhos, lisos, louros, ondulados, negros, longos, sempre longos?
A cada hora que passa, lá vai minha vida também passando e vejo que no céu vem uma andorinha e atrás dela, novamente, já vem o verão e percebo, meio que do nada, que no mínimo sou duas.
Parte de mim é uma permissiva cortesã de teus lábios. Mulher de afirmativas, de olhos pintados e sorriso subversivo.
Outra parte é uma compreensiva amante de teu cheiro, que se subtrai por um olhar de desejo ou qualquer frase daquelas prontas para me aprisionar na obrigação de amá-lo numa monstruosa incoerência.
Mas para quê preciso de coerências se me impuseste tão forte amor e acabaste de me esquecer?
Para que preciso de coerências se no mínimo sou uma incoerente por vos amar?
Para quê preciso de coerências se elas em nada vão me ajudar?
Sei apenas que preciso de ti...
Com teus olhos capciosos e tua boca plurivalente,
Com tua submissão ditatorial e teus cabelos cacheados,
Com teu sarcasmo e teu carinho,
Com teu gosto e tua voz,
Sei que preciso apenas de vocês, que no mínimo, também são dois.

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