Há absurdos palpáveis como uma foto rasgada por raiva ou o telefone que não toca durante o tempo que lhe foi permitido tocar. Mas, nesse caso, o absurdo não é apenas o fato do toque, mas sim o tempo que se demora nessa espera tola. Esse tempo é palpável?
Esse tempo, lento e insosso, está hoje, amanhã e hoje de novo e logo isso se torna uma vida demasiadamente branca pela saudade de mãos inexplicavelmente carinhosas.
“- O absurdo é que não pareça absurdo – disse sibilinamente Oliveira – o absurdo é você sair de manhã e encontrar a garrafa de leite na porta do seu apartamento, ficando muito tranqüilo porque ontem aconteceu o mesmo e amanhã voltará a acontecer. É este estancamento, esse assim seja, esta suspeitosa ausência de exceções. Eu não sei, meu amigo, mas seria preciso procurar outro caminho.”
(Córtazar. Jogo da amarelinha, p.199)


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